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O Capivara

Artigo publicado no site GOBR

Capivara, jogada capivaral, capivarada, inspiração capivaresca. Quando visito o KGS (Kiseido Go Server) para jogar ou conversar, de vez em quanto utilizo essas palavras e correlatas. Muitos goístas ficam em dúvida sobre o significado dos termos. O que significa capivara Magista? É a pergunta comum dos novos amigos, que ainda não conhecem o meu jeito de falar… meio enxadrísta, meio goísta.O termo vem do xadrez. Capivara é o jogador iniciante, que possui pouco conhecimento teórico e prático. É utilizado não de forma pejorativa, mas indicando uma condição que embora transitória cria situações hilárias, interessantes e paradoxais. E por extensão é utilizada para identificar fatos, situações e lances realizados durante a partida que lembram a condição do novato, do inexperiente das primeiras horas…

Existem vários tipos de capivaras. E aqui não apresento todas as modalidades, mas apenas as principais características do jogador capivaral. Existe todo tipo de “bicho”. Uns sabem que são capivaras e procuram sair desta condição com estudo e muita prática. Outros vivem enganados pela vaidade e o orgulho – progridem pouco, pois não sabem que não sabem ou a ilusão do intelecto embota o julgamento de sua condição. Mas é bom lembrar aos interessados – aos goístas esforçados e conscientes de suas limitações -, que a condição capivaresca é feito praga de espelho (quebrou um… azar por sete anos…) pode durar muito tempo…O leitor está curioso sobre o capivara? Deseja conhecer as suas características? Conhecer seu mundo existencial? Descobrir suas motivações e segredos? Perceber a complexidade de suas emoções? Então vamos conhecer este “bicho” surpreendente e enigmático…

O capivara vive a perder partidas ganhas. Quando a posição exige lance simples e objetivo, complica jogando um movimento especulativo. Se a partida está perdida, com grande diferença de material ou clara vantagem estratégica, ele insiste em continuar e adota uma postura de quem já ganhou. Não… não deseja aprender… ele insiste porque está convencido que ainda pode ganhar.

Assistindo as partidas informais – numa partida de torneio, o capivara seria convidado a sair… -, não se contém… e dá sua opinião sobre o melhor lance, que costuma ser perdedor…

É um “comedor de peças” (no xadrez é dito: comedor de peões), pois ainda não compreende ou conhece: a importância da influência; do tempo; o valor relativo das peças; as jogadas marotas; o sacrifício de material; a hierarquia das jogadas; as características das linhas e das diversas áreas do tabuleiro; as fases do jogo; os grandes temas estratégicos e táticos; a necessidade da análise sistemática das variantes ou da posição global. Daí o baixo nível técnico… ou melhor, a “gula”. Toma todas as peças possíveis sem perceber que o “Cavalo de Tróia”… possui vários sabores e formas…

Não fica constrangido ao voltar uma jogada e com freqüência fala para o adversário (quando é educado) posso voltar o lance? Violando as regras de etiqueta (no xadrez existe a regra áurea: peça tocada, peça jogada). Não percebe que agindo assim dificulta o próprio aprendizado. Alguns chegam, também, a colocar os dedos sobre o tabuleiro. Numa tentativa vã de clarear o raciocínio e descobrir as intenções do adversário.

O capivara é fã de carteirinha das formações exóticas e pouco sólidas. Conhece todas ou pelo menos pensa que conhece. E fica perplexo com a teimosia dos jogadores fortes, que não utilizam as formações heterodoxas.

Possui uma relação de amor ou ódio com a entrega de material, a barganha entre o valor material e o valor estratégico. Foge do sacrifício como o diabo da cruz ou morre de paixão pela entrega inconseqüente de material. Não existe meio-termo para o capivara.

Uma tara comum encontrada no mundo capivaresco: o culto as armadilhas e as jogadas espetaculares e mirabolantes. Para o capivara vencer buscando de forma objetiva, técnica e sistemática é coisa vulgar. Ele passa horas e horas decorando armadilhas e “fórmulas” ganhadoras.

O capivara sabe-tudo não analisa as partidas jogadas, pois “sabe” onde errou ou acha que não é importante rever as partidas disputadas. E se um jogador mais experiente indica seus erros, ele tem “justificativa” técnica na ponta da língua. O capivara não erra, ele se engana. Quando isso ocorre é por culpa do adversário… O “sabido” joga esperando que o adversário erre. A análise da posição tende a ser superficial devido ao pouco conhecimento técnico e a inexperiência. E o desejo de que o adversário não descubra as intenções de sua “jogada brilhante” turva a análise.

Jogar, jogar, jogar… de forma compulsiva, rapidamente, sem refletir sobre a qualidade dos lances realizados, sem analisar a conseqüência das jogadas, sem perceber o fluir da partida, sem delinear um plano estratégico ou de ação. Eis outra característica do capivara. Perdido na vastidão do desejo de se transformar num jogador experiente e forte, não encontra o caminho da reflexão e da sabedoria.

Confunde ações de ataque e de defesa. Muitas vezes pensa que ataca quando na verdade é atacado, pois não possui sólida formação teórica e experiência para analisar com segurança certas posições da partida. A visão sobre o jogo é ainda muito limitada. Joga apenas para fazer território. O binário poder x território é uma incógnita. A harmonia estética da boa forma… uma miragem…

Oh! Como é grande o centro! Com ele vou ganhar o jogo! Que tolo meu adversário… jogando pelos cantos e nas laterais! E assim o capivara flutua no Céu, nas áreas altas do tabuleiro, na esperança de fazer grandes e indestrutíveis territórios.

Vencer o medo de perder é o grande desafio a ser superado pelo capivara e até por muitos jogadores experientes. Quem não gosta de ganhar uma partida? A vida em sociedade incentiva o comportamento competitivo. Introjeta no indivíduo os falsos valores do sucesso e da derrota (em função do status social e da situação financeira). O medo da derrota esmaga a auto-estima do capivara, que tende a transferir para o jogo a exigência da vitória, o sonho do sucesso (vencer ou vencer) tão incentivado na vida social. O capivara evitando ou temendo jogar contra goístas mais fortes e experientes, ainda não percebeu que o mais importante da partida não é o resultado – vitória, derrota ou empate. É o processo de construção da partida. A vitória e a derrota são efêmeras e grandes ilusões. Quem nunca descobriu que ao vencer perdeu… ao perder ganhou? Assim também é na vida… não é mesmo?

Os capivaras de todos os tipos, de todos os quadrantes, de todos os jogos, de todos as atividades se assemelham e possuem afinidades. Onde existir atividade humana, aí encontramos o capivara e a capivarada. O erro não decorre da inexperiência, do momento leviano, do juízo apressado, do desejo, da mesquinhez de sentimentos, da soberba, do autoritarismo, da tola vaidade, da ilusão da permanência, da astúcia, do ódio, da inveja, da mentira? Errar não faz parte da condição humana?

Ninguém escapa de uma capivarada. O lance infeliz que compromete a partida. Ou de um dia de pouca inspiração, quando capivaramos do começo ao fim numa partida (ou em várias partidas). Não importa a força do goísta… O lance desastroso será realizado… o dia capivaral chegará… mais cedo ou mais tarde!

O que fazer nos momentos capivares? Só resta ter paciência e sorrir. Aprender com o momento de sofrimento mental e espiritual. E recordar a bela poesia de Nelson Motta e Lulu Santos (Como uma onda):

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinitoTudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu a um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

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Metáforas


Impermanência

Observamos na natureza a presença constante da impermanência. A mudança é a única certeza que temos sobre o amanhã. Tudo se transforma. Na semente, a potencialidade da planta. No rio, o traçado caprichoso de seu leito esculpido preguiçosamente pelo correr das águas. As estações do ano revelam a contínua alteração dos ecossistemas. A moda de hoje é o antigo do próximo século. Em todos os lugares a vida resultando em morte, a morte criando a vida. Inevitável é o passar o tempo, feitor e juiz de nossos atos e desejos. Tentamos reter a felicidade e o prazer efêmero, porque tememos a incerteza do momento seguinte e do passado colhemos apenas a saudade.

Nada existe tão dinâmico como a mente. Mil planos, idéias, imagens, pensamentos, desejos, intuições, evidências, esperanças. Ora estamos no passado vivido, no momento seguinte (ou será no mesmo instante?) nos projetamos para o futuro onde colidimos com o presente. Turbilhões de objetos mentais povoam nosso ser.

Por mais que se deseje, nada é o que já foi ou será do mesmo jeito. A ilusão da permanência engana os sentidos. Nosso corpo físico é renovado e transformado constantemente. Perdido em emoções e sentimentos, cuidando egoisticamente de suas necessidades existenciais. O homem deseja a segurança do conhecido e teme a incerteza das oportunidades futuras.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinitoTudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu a um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
(Nelson Motta e Lulu Santos, Como uma onda)

A regra de Ko impede os jogadores, durante uma partida, de repetirem a mesma posição. Bela metáfora sobre a impermanência. Ko nos alerta para a inevitável passagem do tempo. Ko ensina sobre a mudança e a transformação. Uma posição de Ko, quando resolvida resulta em ganho ou perda. Quem ganha? Quem perde? Ilusões da mente…

Bibliografia:
Gibran, Khalil Gibran. O Profeta; tradução de Mansour Challita. – Rio de Janeiro: EBAL, distribuição Record.
Tulku;Tarthang. A expansão da mente; tradução de Paula Rozin, Regina F da Costa e Manoel Vidal; revisão técnica Instituto Nyingma do Brasil. – São Paulo: Editora Cultrix, 1995.
Tulku;Tarthang. O caminho da Habilidade – Formas suaves para um trabalho bem-sucedido; tradução de Manoel Vidal; revisão técnica Instituto Nyingma do Brasil. – São Paulo: Editora Cultrix, 1995.
Thakar, Vimala. Meditação – Uma Maneira de Viver; tradução de Nilda Augusto Pinto. – São Paulo: Editora Pensamento, 1999.

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Metáforas

Imagem: Telescópio Hobble/Nasa

Universo

“A natureza e o universo não constituem simplesmente o conjunto de objetos existentes, como pensava a ciência moderna. Constituem, sim, uma teia de relações, em constante interação, como os vê a ciência contemporânea. Os seres que interagem deixam de ser apenas objetos. Eles se fazem sujeitos, sempre relacionados e interconectados, formando um complexo sistema de inter-retro-relações. O universo é, pois, o conjunto das relações dos sujeitos.”
(Leonardo Boff, A águia e a galinha)

O universo contém matéria e energia em diversas formas e densidade. Visível ou invisível. Aglomerado de nebulosas, galáxias, Buracos Negros, Quasares, estrelas, planetas e outros objetos siderais. Diversas conjecturas humanas tentam explicar a origem do Universo. O Big Bang é teoria dominante, enunciada em 1948 pelo cientista russo naturalizado norte-americano George Gamow (Guiorgui Gamov).

O universo possui seus análogos no jogo de Go. O tabuleiro, uma estrutura espacial onde matéria e energia interagem durante a evolução da partida. Verdadeiro tijolo construtor, a pedra (goishi) é o elemento de composição do universo goístico. Movimento, potencial de realização, estruturas conceituais, formas, influência, ação (vontade criadora – iniciativa) são algumas das diversas formas de energia e matéria que possuem equivalentes no Go.

O tabuleiro delimita um conjunto de territórios a serem conquistados onde surgem (vivem) e desaparecem (morrem) os diversos aglomerados goísticos. Grupos e cadeias de pedras – como verdadeiras nebulosas, galáxias, Buracos Negros, Quasares, estrelas, planetas e outros objetos siderais – em processo contínuo de construção e reconstrução.

As pedras são elementos de força e poder. Elas criam influência, possibilidades combinatórias, estruturas e formas que permitem a construção de territórios e garantem, quando corretamente posicionadas, a sobrevivência dos grupos – o fenômeno goístico da vida e da morte.
A malha formada pelo cruzamento das linhas forma uma estrutura de conexões e interações. Dutos energéticos. Fluem das linhas, a energia e a força que emanam das pedras. É o suporte sobre o qual a realidade goísta se manifesta e existe.

Sol (em Raios X)
Imagem: Nasa

Sol

“A Humanidade não ficará na Terra para sempre, mas na sua busca de luz e espaço irá primeiro timidamente penetrar para lá dos confins da atmosfera, e mais tarde conquistar para si própria todo o espaço perto do Sol.”
(Konstantin E. Tsiolkovsky)

O Sol está ativo há aproximadamente 4,6 bilhões de anos. Estimam os cientista que continuará sua evolução sideral por mais cinco bilhões de anos, quando se transformará numa anã branca.
A massa do Sol corresponde a 98% da massa total do sistema solar. Um gigante entre gigantes (Júpiter, Saturno, Urano). É o maior objeto espacial do sistema. Calcula-se que seriam necessárias cento e nove Terras para preencher o disco solar e, no seu interior, caberiam 1,3 milhões de Terras.

Doador de luz, energia e calor. A vida no planeta Terra existe em função da energia solar. A fotosfera é a camada visível do astro-rei e possui uma temperatura de 6,000°C (11,000°F). Em sua superfície ocorrem fortes e turbulentas erupções de energia.

O símbolo do Sol descreve uma condição como um centro – um ponto – em torno do qual tudo se organiza e interage. É um núcleo, mas também uma aglutinação energética – relação metafórica entre a matéria e a energia.

O corpo humano é um microuniverso. O Sol é a representação simbólica do coração, centro do sistema bioenergético humano. A semelhança analógica entre os dois sistemas é reconhecida pela tradição hermética, que a nomeia por macrocosmo (sistema solar) e microcosmo (corpo humano).

O ponto é o ente fundamental do universo goístico. O tengen (ponto 10, 10 no tabuleiro 19 x19) é o Sol goístico, ponto central do tabuleiro. Assim como no universo, o tabuleiro possui outros 360 pontos que representam de forma simbólica o espaço dos bilhões e bilhões de sistemas que povoam o enigmático e surpreendente universo e seus sóis metafóricos.

“El número de los diez mil seres se origina del uno. Por consiguiente, las trescientos y sesenta intersecciones del tablero del weiqi también tienen su uno. Uno es el principio generador de números y considerado como un polo, que produce los cuatro puntos cardinales.” – o texto faz referência aos ensinamentos de Lao Tsé, descritas no Tao Te King, relacionados com a origem do universo.
(Zang Jing, Qijing Shisanpian)

Bibliografia:
Boff, Leonardo. A águia e a galinha – uma metáfora da condição humana. – 32 ª ed. – Petrópolis: Editora Vozes, 1999.
Golgher, Isaías. O universo físico e humano de Albert Einsten. – Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991.
Goswami, Amit. O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material; tradução de Ruy Jungmann. – 6ª Ed. – Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 2003.
Jing, Zang. Qijing Shisanpian (El Clásico de Weiqi en Trece Capítulos), PDF eBook.

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Metáforas

Binário: Caos – Ordem

“Então, no princípio era o Caos; depois a Terra de largos flancos,
base segura oferecida para sempre a todos os seres vivos,
e Eros, o mais belo dentre os deuses imortais,
aquele que subjuga no peito de todos os deuses e de todos os homens,
o coração e a sábia vontade.”
Hesíodo, Teogonia
(Poeta grego do século IX ou VIII a.C)

A criação do Universo ainda é um mistério. Terá sempre existido? Possui começo e fim? Existe uma causa primordial e inteligente? Como criou o Universo? Ela é a causa primordial de todas as coisas? Pode o homem compreender a magnitude de seu Criador? Ou o Universo resulta apenas da interação espontânea entre os elementos primordiais? Surgiu do “nada”? Existe uma matéria primordial? Quais as suas propriedades elementares? O que existia antes da sua criação? É um processo cíclico? O homem poderá algum dia compreender ou descobrir a causa e a finalidade da criação? Por que o homem sempre se preocupou com a origem do Universo? Caos ou ordem predomina no Universo? Existe apenas um ou muitos Universos?

O que é a vida? Qual a finalidade da vida? É um fenômeno espontâneo ou resulta da vontade de um criador? Quando começou a existir vida no planeta? E a vida inteligente? Existe vida apenas no planeta Terra? Existem outras formas de vida inteligente no universo? A humanidade é apenas um fenômeno isolado? Que condições ambientais são necessárias à criação da vida? A espécie humana é o resultado da evolução das espécies ou de um ato de vontade do Criador? O que causa as diferenças físicas e morais da humanidade?

Diversas são as cosmogonias (do gr. kosmogonia – mitos que contam a criação do mundo) que tentam explicar a origem do Universo e da Vida. Algumas afirmam que a criação surgiu de um caos primordial. Outras de um “nada”. Duas correntes de pensamento desenvolvidas na Grécia antiga e em outras civilizações. No entendimento de alguns filósofos gregos, Caos é o estado primordial e primitivo da matéria. No início, apenas o Caos existia. Tudo era confuso, misturado, não-diferenciado e amorfo. Não havia luz. E da escuridão profunda (Érebo e Nix) surge a luz e as divindades abstratas.

A mitologia do Xintoísmo (religião nativa do Japão) que o Universo resultou do Caos – quando da separação de duas forças cósmicas (yo, o princípio ativo; in, o passivo – de ação recíproca). As forças geraram os cinco elementos (ar, água, madeira, metal e terra), que criaram as Dez Mil Coisas. O princípio ativo é denominado de Céu e o passivo Terra.

O momento da criação, ordenadora do caos, segundo a tradição judaico-critã:“1. No princípio, Deus criou os céus e a terra. 2. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. 3. Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita. 4. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.” (Gn 1,4)

Os índios Maori (Nova Zelândia) apresentam uma sugestiva mitologia sobre a criação do mundo:

Do nada a procriação,
Do nada o crescimento,
Do nada a abundância,
O poder de aumentar o sopro vital;
Ele organizou o espaço vazio,
E produziu a atmosfera acima,
A atmosfera que flutua sobre a Terra;
O grande firmamento organizou a madrugada,
E a Lua apareceu;
A atmosfera acima organizou o calor,
E o Sol apareceu;
Eles foram jogados para cima,
Para serem os olhos principais do Céu;
E então o firmamento transformou-se em luz,
A madrugada, o nascer do dia, o meio-dia.
O brilho do dia vindo dos céus.

Religiosos, filósofos e cientistas apresentam conjecturas sobre o momento inicial da criação e a existência do fenômeno vida. Universo e Vida, arcanos milenares que escondem os segredos do caos e da ordem. Desafiam a inteligência do homem e sugerem a existência de uma Inteligência Criadora. Eterna, infinita, imutável, imaterial, única.

Questionando as origens do Universo e da Vida, o homem percebe a fragilidade de sua existência. A eternidade é apenas um instante… no grande relógio das eras. E o infinito a idealização de algo que não pode ser vivenciado. Perplexo, o homem percebe a importância do binário: caos – ordem. Regente de toda estrutura conceitual e existencial.

Nota Explicativa:1. O Caos, simbolicamente, representa um estado:

a) de não-diferenciação, amorfo e primordial que antecede uma criação;
b) de não-ordem, onde existem princípios, leis e regras em latência, em condição não manifesta.

2. Ordem é o estado de organização regido por princípios, leis, diretrizes, normas e convenção. Não é sinônimo de estabilidade ou estagnação.

1. Caos – Origem Histórica

No ocidente, o jogo é conhecido pelo nome de Go palavra de origem japonesa. No Japão é conhecido como Igo ou Ki. Wei Qi é a denominação utilizada na China, que possui a variação escrita Weiqi ou Weiki. Baduk ou Patuk na Coréia.

O jogo de Go tem origem incerta. É provável que tenha surgido na China há 4.000 ou 5.000 anos. Lendas e mitos fazem parte de sua tradição. Alguns estudiosos sugerem que sua origem está vinculada à astrologia chinesa. Os astrólogos utilizavam o tabuleiro e as peças (de madeira ou pedra) para estabelecer a posição dos astros, criando um rudimentar mapa celestial. Outros afirmam que o Go foi inicialmente uma versão primitiva de instrumento de cálculo, o ábaco.

O Go recebeu influência do Taoísmo, Budismo e Xintoísmo. Segundo alguns pesquisadores, o jogo surgiu como um instrumento religioso e utilizado como oráculo. As pedras brancas e pretas representavam o bem e o mal. Neste contexto, o Go seria uma representação do Universo e das forças positivas e negativas que nele atuam.

O jogo foi muito utilizado por militares para a representação do campo de batalha, das estratégias imaginadas, das táticas utilizadas em combate e da estrutura logística necessária à realização da guerra.

A prática do jogo se expandiu para outros países – Coréia e Japão. Há aproximadamente 1400 anos e Tibet (datação incerta).

Antigamente, na China, a partida era iniciada com algumas pedras sobre o tabuleiro. Antes do primeiro lance eram colocadas quatro pedras conhecidas como “pedras assentadas” ou “pedras colocadas”. O jogador de pedras brancas iniciava a partida, que eram extremamente agressivas.

2. Ordem – As Regras de Go

Elas regem o universo goístico.

  1. Go é jogado, por dois jogadores, sobre um tabuleiro matricial formado pela intersecção de linhas e colunas. O tabuleiro possui dimensão variável, em geral, definido por uma malha de 19 x 19 linhas (Goban, tabuleiro).
  2. Os lances são realizados de forma alternada. Tradicionalmente o jogador mais forte joga de brancas. O jogador de pretas, em geral, inicia a partida.
  3. Os lances são realizados colocando-se uma pedra sobre a intersecção das linhas.
    As pedras colocadas não podem ser movimentadas. A retirada da pedra (captura) ocorre de acordo com a regra nº 4.
  4. O objetivo do jogo é formar território. O jogador que cercar mais territórios ganha a partida. As pedras colocadas sobre o tabuleiro, que perderem a condição de vida – perda de liberdade – são capturadas e retiradas do tabuleiro.
  5. É proibido colocar pedra sobre um ponto do tabuleiro que não possua liberdade.
  6. Uma posição de jogo não pode ser repetida (regra especial denominada de Ko).
  7. O desnível técnico entre jogadores pode ser compensado. É facultado ao jogador mais forte oferecer partido (handicap), uma pedra por cada grau de força (desnível técnico) até o número máximo de nove pedras.

 

Bibliografia:

Aurélio, Marco. Meditações; tradução de Jaime Bruna– São Paulo: Editora Cultrix.

Boff, Leonardo. A águia e a galinha – uma metáfora da condição humana. – 32 ª ed. – Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

Cheng, Wu. Tai Chi Chuan – a alquimia do movimento. – Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1989.

Dodge, Ellin e Schuler, Carol Ann. Manual de Numerologia; tradução de Paulo César de Oliveira. – São Paulo: Editora Pensamento, 2004.

Gibran, Khalil Gibran. O Profeta; tradução de Mansour Challita. – Rio de Janeiro: EBAL, distribuição Record.

Golgher, Isaías. O universo físico e humano de Albert Einsten. – Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991.

Goswami, Amit. O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material; tradução de Ruy Jungmann. – 6ª Ed. – Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 2003.

Ikeda, Daisaku. O Buda Vivo; tradução de Ruy Jungmann. – 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.

Jing, Zang. Qijing Shisanpian (El Clásico de Weiqi en Trece Capítulos), PDF eBook.

Kury, Mário da G. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

Meunier, Mário. Nova Mitologia Clássica. -: Ibrasa, 1976.

Tulku;Tarthang. A expansão da mente; tradução de Paula Rozin, Regina F da Costa e Manoel Vidal; revisão técnica Instituto Nyingma do Brasil. – São Paulo: Editora Cultrix, 1995.

Tulku;Tarthang. O caminho da Habilidade – Formas suaves para um trabalho bem-sucedido; tradução de Manoel Vidal; revisão técnica Instituto Nyingma do Brasil. – São Paulo: Editora Cultrix, 1995.

Thakar, Vimala. Meditação – Uma Maneira de Viver; tradução de Nilda Augusto Pinto. – São Paulo: Editora Pensamento, 1999.

Tzu; Sun. A arte da guerra; tradução do original chinês para o inglês por Samuel B. Griffith; tradução de Gilson César Cardoso de Souza, Klauss Brandini Gerhardt.- Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. – (coleção cultura)

Tzu;Sun. A arte da guerra; adaptação e prefácio de James de James Cavell; tradução de José Sanz. – 30 ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2002.

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